António Sérgio
Cheguei agora a casa depois de um extraordinário concerto do Steve Reich com Bang On A Can, a fazer-me lembrar um outro concerto (dois, para ser exacto) na Gulbenkian há vinte anos atrás, possivelmente ainda mais extraordinário, mais que não seja porque a memória torna as coisas mágicas e eu tinha - tínhamos - vinte anos a menos.
Ao chegar a casa recebi a mensagem de um amigo que o António Sérgio tinha morrido. E para mim, que nunca o conheci em pessoa foi como se uma parte de mim também tivesse morrido. António Sérgio foi certamente a figura mais mítica da rádio, a figura mais exaltante para quem queria sair do Portugal paroquial dos anos 80, nem que fosse através dos sonhos sonoros que chegavam pelas ondas da Rádio Comercial.
Nessa altura o FM da Rádio Comercial era um estranho milagre onde coexistiam os mais diversos programas com as mais diversas orientações musicais, mas que se pautavam todos (ou quase todos) pela excelência. Nunca a rádio em Portugal (atrevo-me a dizer, nunca em lado nenhum) foi tão excitante; houve programas como Abandajazz, Em Órbita, Dois Pontos, Café Concerto, Country Music Música da América, Pretérito Quase Perfeito, Rock Em Stock, Morrison Hotel, Escola do Paraíso, Trópico de Dança, entre muitos outros, feitos por gente de gosto e critério. Pareciam tantos na altura, mas afinal eram poucos.
E no entanto, para mim, nada igualará o Rolls Rock, minha introdução ao mundo musical de António Sérgio, programa que só no seu genérico era já inesquecível, começando como começava com os primeiros acordes de Holiday in Cambodia dos Dead Kennedys e que eu tantas vezes digo - sem exagero porque é uma verdade metafórica - que me salvou a vida. Ouvi-lo da meia noite às duas era cumprir um ritual que nos permitia esperar que um dia Portugal fosse um sítio melhor, fosse um sítio onde a saloiada oficial, que tinha direito a espaço nos jornais, nas rádios, nas televisões, seria remetida para o caixote do lixo onde pertence e onde as coisas boas iriam aparecer e ser ouvidas, vistas, lidas, discutidas, amadas.
Esse dia nunca chegou. Mas a verdade é que muitas outras coisas aconteceram que tornaram este país melhor, mais aberto e menos paroquial, e à medida que o acesso a tanta coisa se tornou mais fácil o sonho alimentado por horas e horas de António Sérgio tornou-se real, ilusoriamente real.
Devo-lhe muito mais que a formação de um gosto musical. Devo-lhe uma impossibilidade terminal de cair no conformismo. Devo-o também a outros mas para o adolescente que eu era, o António Sérgio foi o primeiro, o homem da voz magicamente soturna, que anunciava a hora dos sortilégios sem fim da música popular, da música, da comunidade incomum dos que amam esses produtos inúteis a que chamamos arte.
Ao chegar a casa recebi a mensagem de um amigo que o António Sérgio tinha morrido. E para mim, que nunca o conheci em pessoa foi como se uma parte de mim também tivesse morrido. António Sérgio foi certamente a figura mais mítica da rádio, a figura mais exaltante para quem queria sair do Portugal paroquial dos anos 80, nem que fosse através dos sonhos sonoros que chegavam pelas ondas da Rádio Comercial.
Nessa altura o FM da Rádio Comercial era um estranho milagre onde coexistiam os mais diversos programas com as mais diversas orientações musicais, mas que se pautavam todos (ou quase todos) pela excelência. Nunca a rádio em Portugal (atrevo-me a dizer, nunca em lado nenhum) foi tão excitante; houve programas como Abandajazz, Em Órbita, Dois Pontos, Café Concerto, Country Music Música da América, Pretérito Quase Perfeito, Rock Em Stock, Morrison Hotel, Escola do Paraíso, Trópico de Dança, entre muitos outros, feitos por gente de gosto e critério. Pareciam tantos na altura, mas afinal eram poucos.
E no entanto, para mim, nada igualará o Rolls Rock, minha introdução ao mundo musical de António Sérgio, programa que só no seu genérico era já inesquecível, começando como começava com os primeiros acordes de Holiday in Cambodia dos Dead Kennedys e que eu tantas vezes digo - sem exagero porque é uma verdade metafórica - que me salvou a vida. Ouvi-lo da meia noite às duas era cumprir um ritual que nos permitia esperar que um dia Portugal fosse um sítio melhor, fosse um sítio onde a saloiada oficial, que tinha direito a espaço nos jornais, nas rádios, nas televisões, seria remetida para o caixote do lixo onde pertence e onde as coisas boas iriam aparecer e ser ouvidas, vistas, lidas, discutidas, amadas.
Esse dia nunca chegou. Mas a verdade é que muitas outras coisas aconteceram que tornaram este país melhor, mais aberto e menos paroquial, e à medida que o acesso a tanta coisa se tornou mais fácil o sonho alimentado por horas e horas de António Sérgio tornou-se real, ilusoriamente real.
Devo-lhe muito mais que a formação de um gosto musical. Devo-lhe uma impossibilidade terminal de cair no conformismo. Devo-o também a outros mas para o adolescente que eu era, o António Sérgio foi o primeiro, o homem da voz magicamente soturna, que anunciava a hora dos sortilégios sem fim da música popular, da música, da comunidade incomum dos que amam esses produtos inúteis a que chamamos arte.